domingo, 3 de junho de 2012

RASURAS


Estou escrevendo agora em autênticos guardanapos de boteco,
frases apenas, soltas e despretensiosas do poema,
passeando por essa manhã de domingo frágil e incomoda ,
como se não quisessem me dizer nada, apenas existir,
frases exaustas da canção e da invasão do nexo nos dias,
das emoções truncadas e das ruas vazias onde se soltam
das bocas inóspitas, das línguas hipócritas.
Estou escrevendo agora,
algo pra lembrar e pendurar nas paredes do tempo
depois que acordar,
como quadros antigos de molduras enormes,
enfeitando espaços vazios.
Estou escrevendo o que pretendo fazer enquanto vivo:
Botarei flores do campo em meus jarros mais antigos,
guardados dentro de armários ociosos
e darei bom dia ao cheiro de café fresco, ao beijo do sol, à música
e ao sorriso que pretendo guardar nos lábios pálidos.
Escrevo agora, como quem se habilita a morrer,
porque a morte tem o poder de tragar suas verdades
e sepultar seus sonhos,
faminta por engolir suas palavras mais sinceras.
Quem morre é mais honesto que quem vive.
Viver requer muita prática em mentir.
Escrevo, porque estou farta dessas angústias
e dessa terceira pessoal no plural que me habita,
de todas essas cretinices em que tenho me amparado,
por medo de me tornar ridícula.
Estou escrevendo agora, em preto e branco
enquanto tudo por dentro anda colorido,
enquanto o barulho do lado de fora não se torna aflitivo
e eu posso sentir o silencio das coisas que me levam.
Bem de leve!
Escrevo porque sou filha da palavra que me despe,
esposa do verso que me escolhe,
amante da rima me recolhe em seu ritmo,
mulher da poesia que invade meu íntimo
e dona dos dedos por onde ela escorre.
Escrevo despretensiosamente como alguém que dorme.


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