sábado, 12 de maio de 2012

INSÓLITO CAOS



"Corre pelo mundo, de boca em boca, que a leveza é uma mentira e já não reconhecem a palavra lealdade. Nada mais é tão leve que consiga ser verdadeiro. O imediatismo adoeceu os pares e a peste da mentira espalhou-se pelo mundo. Tudo se desgoverna com a velocidade impiedosa dos dias. As noites pertencem aos leopardos, que espreitam vazios de amor as sonoras sendas das madrugadas. Não há mais nada que não seja vidro e bruma. Os sorrisos se perderam dos rostos e os rostos perderam a transparência do gesto, apenas os olhares não se escondem e, portanto, ainda assim se pode enxergar a bússola das emoções represadas e descobrir em que direção navega o órgão pulsante em seu peito, talvez por essa razão quase nunca os olhos se cruzem. As idéias acontecem muito mais rápido que em outros anos e as palavras se proliferam sem cuidado, sem adotar nenhum critério que tenha por base possibilidades honestas. Tudo é uma carroceria velha e barulhenta nesse mundo! Onde se escondeu o amor do planeta? Onde? Onde foi que  esconderam a coragem de ser? Onde instaurou-se o decreto de apenas existir diante da vida?Acho que estive presa por tempo demais a valores insignificantes e fugazes.Fui enganada a respeito das cores que pintaram meus cabelos, quando as cores dos cabelos eram as únicas falsidades sobre a terra. O que me aconteceu enquanto dormia? Onde foram parar as piadas de bom gosto, os apelidos carinhosos e os violões da serra? Eu procuro e só vejo neblina, inteligência e caos. Um caos de sentimentos soltos que na verdade não são sinceros, um caos de inverdades perfeitas, um caos de corpos que se tocam superficialmente, como segundas peles, que vestem a alma aprisionada na alegria vaidosa, em camisinhas furadas, falsificadas, que podem romper-se a qualquer momento, esparramando o rio de emoções trancafiadas em um corpo roto. Ah!! Poetas da minha guarda!! Loucos e lúdicos poetas da minha infância!! Me digam por onde andam as músicas com suas notas delineadas? Onde andam as paixões e os ardores? Onde? Raros são os amores que sobrevivem a essa cruel armadilha e a estes, rendo meus sinceros desejos de sempre...para sempre, com a mesma tranqüilidade que para agora. Eu ainda amo o amor, embora já não saiba recebê-lo. Eu ainda amo o amor! Ainda que seja breve o meu anseio de amar.Amar em dias assim, é frivolidade. Amar ficou nos tempos de quando eu era ontem, enquanto eu falava a mesma língua dos homens e podia dizer de dentro para fora o que sentia. A leveza que percebo me assusta, ventam demais nessas horas futuras e eu não caibo mais nos espaços de antes. Procuro um lugar para caberem minhas idéias e meus sentires, minhas vontades sinceras...No entanto, não culpo os dias de hoje pela minha solidão, isto é apenas saga dos seres legítimos, são efêmeros. Eu, poeta dos retirantes, aguardo a minha hora de partir, para aquele mundo, que não existe mais, onde habitei em instantes mais reais.”

Um comentário:

  1. Bem,para começar o que se trata de provar aos mistérios do que comove, sem passar pelo conhecido, se lançar ao que não persiste encontrar não só na mente e sim no que o coração diz, papo de gente para gente,enfrentar o desafio de viver, sorrir com a alegria de trocar. Na tela que agora em palavras tão bem elaboradas vejo a figura de que a bem forma de viver é declarar o que tem para irradiar com a luz do que faz tudo ser verdadeiro,embora a poesia faz tudo em volta do que as perguntas dão contorno,sobre o tão intimo de cada um e isso é raro.

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