terça-feira, 10 de abril de 2012

ESTÚPIDA

“Sou uma estúpida!

A minha estupidez traduz-se nos olhos.

Tenho olhos crédulos e enfadonhos

que me delatam aos espelhos toscos que me cercam.

Minha carne é estúpida.

Trêmula ela padece sórdida sobre os lençóis limpos

Que a deveriam cobrir.

Minha beleza é de uma estupidez frívola e insana.

Ela não é real.

Ela é meu vestido branco pronto para a festa.

Ela é a mentira que alimenta a minha volubilidade indócil e degenerada.

Ela é o nada.

E o que é o ser humano visto do avesso,

Que não a sua própria estupidez encarnada?

O que é o homem depois de despido e cru

Em face da sua dor e verdade?

A minha estupidez me consagra imperfeita e pálida

E redefine meu contexto, meu nexo, meu sexo, meu texto, meu pretexto,

Minha crença ancestral, meu grito primal,

Meu bolor, meu odor, minha procura, minha caricatura,

Minha resenha, minha senha,minha usura, minha postura...

Sou uma estúpida!

Criatura deformada pelos ditos deveres, pelos falsos saberes

Que me aprisionam ao que na verdade não sou.

A minha estupidez está cravada em meus ossos como vermes ,

Em minha língua como brasa,

Em meus pés como pedras.

Saboreio a minha estupidez vagarosa e francamente,

Dolorosa e friamente

E permito que ela me provoque ânsias,

Que me esvazie de mim...

Face a face com a minha tragédia

Eu me alegro, enquanto sinto os cortes,

Enquanto choro os açoites,

Porque percebo-a indubitavelmente trigo,

Irremediavelmente semente.

O mundo é hipócrita e eu sou uma estúpida!

A olhos nus ela me salva de minha tortuosa mentira,

Ela me liberta dos véus que eu via antes,

Me limpa dessa ira que habita meu seio.

E eu, estúpida que sou,

Nua diante de uma platéia coberta e febril,

Posso garantir que é melhor ter a alma devassada,

A perder-se na imensa bruma flutuante para sempre,

Ainda que seja dor, ainda que eu sangre fervorosamente,

Prefiro ser estúpida a permanecer demente.”

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