segunda-feira, 9 de abril de 2012

ENQUANTO EU MORRIA

Enquanto morria, as manhãs de inverno padeciam mais úmidas

E eu passava horas arqueada sobre elas,

Envolta em cobertas porosas,

De olhos fechados para o que havia fora de mim.

Enquanto morria, os livros envelheciam na estante empoeirada,

As rosas morriam na minha janela

E a página secreta de um velho poema

Ia se tornando frágil e amarela.

Enquanto morria, a aquarela do meu céu escorria para dentro do nada,

Sinos repicavam seus acordes frêmitos em doses ensaiadas

Enquanto meu rosto tépido, de mar, se molhava.

Enquanto morria, as borboletas levaram minha poesia,

Sem deixar-me sequer uma única palavra

E eu, em frígido e miserável escárnio me tornava.

Enquanto morria, dentro de mim tudo se espalhava,

Fragmentando-se em cacos e revoadas retirantes,

Cortantes como navalhadas quentes,

Que faziam-me sangrar aos montes e sem piedade.

Enquanto morria, tudo era canção de ir embora,

O primeiro dia, a última hora, o momento exato do meu fim

Onde o tempo girava e se escondia,

Enquanto fora do tempo, havia um tempo que morria em mim

Um comentário:

  1. Uma das mais belas e fortes poesias que ja ouvi !
    Parabéns por ela e pela conquista pessoal...

    ResponderExcluir